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E chega, chega de lucides. Quero o louco. O errado. O indiscreto. O irresponsável. Quero tudo o que sempre quis. Quero é ter espaço no meu mundo.

Então, aqui estou, amparado por meus pensamentos. É um tugúrio que me acolhe, enquanto lá fora troveja. E estar diante dos meus devaneios me parece ser um extenso paraíso, embora tão vazio de cores e sorrisos… E vago por entre os mausoléus, em busca de mim mesmo. Sei apenas que abrigo o tudo e o nada. Uma mistura insolúvel de todas as dores e rancores que me apetecem gritar. Se grito?! Não… Embora tenha ímpetos, não consigo. São sentimentos insensíveis, vazios, incomuns. Mesmo assim, o vazio também inspira e, enquanto me esvaneço nos sepulcros da minha própria solidão, sinto esse vazio me preencher. E a necessidade de gritar em silêncio é maior. O equilíbrio é tênue. Assim, vivo a oscilar entre o tudo e o nada. Mas é difícil… É difícil escrever sobre sentimentos que não existem — ou, pelo menos, se desconhecem.
— Querino Neto (via escritor-de-gaveta)


Olhares e sorrisos… É assim que a defino. Seus olhos, inocentes, cativavam-me. Brilhantes como as estrelas e negros como a cálida noite, fizeram-me devanear num universo jamais explorado, embora este fosse paralelo ao meu. Refletia-se neles o céu e, como se por um encanto fosse, percebi-me estar por ele volitando. E por lá passeavam livres, embora rebeldes, gaivotas a divagar por sua imensidão. Mas, logo em seguida, o cenário celestial foi substituído por um lugar terrestre, um paraíso multicolorido. Dei-me conta de já estar no sorriso. Que sorriso! Tão doce e amável… E, de quando em quando, dali saíam palavras tímidas que mansamente voavam aos meus ouvidos, em sussurros quentes, apaixonantes. Percebi, então, que o paraíso era afável porque a dona dos olhares e dos sorrisos também o era. Mas bastava uma lágrima a cair dos seus olhos e um sussurro de desespero vindo dos seus lábios para tornar o céu nublado e os lírios inodoros. Ainda assim, tudo lá era tão utópico que, por uns minutos, permaneci estático, a indagar: “Moça, vós sois verdade, ou mero fruto de meus anseios?”. A resposta não me veio de imediato. E também, pouco importava. Tudo o que eu desejava, naquele momento, era permanecer ali, por toda o sempre, habitando em seus olhares… Em seus sorrisos.
— Querino Neto (via escritor-de-gaveta)
